Síndrome de Burnout e o teletrabalho

Dentre todas as adaptações exigidas neste contexto da pandemia, parece que a reorganização das nossas rotinas de trabalho foi um dos maiores desafios. Em todos os aspectos. Adaptar nosso espaço físico dentro de casa e encontrar um lugar tranquilo, silencioso e organizado para conseguir realmente se concentrar no trabalho, não foi uma tarefa fácil para muitos (os pais de crianças pequenas que o digam).

“Ensinar” para o nosso cérebro que nossa casa agora era o lugar de trabalhar (sentar-se à mesa, focar e resolver “as demandas necessárias”), e não mais o local de “descanso ou relaxamento” após o expediente, também se apresentou como um grande desafio. E o que dizer da reorganização dos nossos horários, com o famigerado home office invadindo todos os espaços e horas da nossa vida?

Os relatos de alteração completa da rotina levaram a queixas frequentes de insônia, alterações do apetite, ansiedade exagerada, “dificuldade para desligar”, sentimento de tensão constante, cansaço crônico e sensação de esgotamento, tornando essas questões cada vez mais frequentes e muitas vezes acompanhadas de sentimentos de culpa e incapacidade.

O papel do trabalho na construção da identidade do indivíduo já é objeto de estudo há longa data. Segundo Dejours (em “A Loucura do Trabalho”, 1992), o trabalho nem sempre possibilita a realização profissional. Ele pode, ao contrário, provocar problemas desde insatisfação até a exaustão.

A Organização Mundial da Saúde incluiu a Síndrome de Burnout (ou Síndrome de Esgotamento Profissional) como um “fenômeno ligado ao trabalho” na nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Segundo a CID-11, Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso e é caracterizada por três dimensões:

  • sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia;
  • aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho;
  • redução da eficácia profissional.

 

Os indivíduos que desenvolvem Síndrome de Burnout sentem-se sobrecarregados, desmotivados, insatisfeitos, apresentando baixo desempenho profissional e constantes problemas de saúde. Em muitos casos, tendem a não expor o problema por medo de perder o emprego, o que dificulta ainda mais o diagnóstico.

Além disso, o Burnout amenta o índice de ausências no trabalho (absenteísmo), licenças por auxílio-doença, necessidade de reposição do quadro de colaboradores pelas empresas, novas contratações, novos treinamentos e podem ocorrer queda da produção e da qualidade do serviço prestado. A Síndrome também foi reconhecida em diversos estudos como um risco ocupacional para profissões que envolvem cuidados com a saúde, educação e serviços humanos.

Apesar de todas as consequências negativas do Burnout nos níveis institucional, social e pessoal, trata-se ainda de uma condição pouco conhecida, subdiagnosticada e subtratada. Portanto, é de fundamental importância que a população em geral e os profissionais de saúde conheçam melhor essa condição.

O maior acesso à informação sobre o tema, com o reconhecimento do Burnout como um grande problema no atual mundo profissional, pode ajudar as organizações a atuar na prevenção. Buscar auxílio profissional é muito importante quando sintomas do quadro já estão presentes. A psicoterapia pode auxiliar muito no processo de recuperação, assim como o tratamento com psicofármacos, quando indicado.

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Médica psiquiatra do IACB, Dra. Melissa Chagas Assunção de Mello

Artigo escrito pela Dra. Melissa C. Assunção de Mello (CRM: 115747), Médica Psiquiatra com graduação em Medicina e Residência Médica em Psiquiatria pela UNESP/Botucatu, possui Título de Especialista em Psiquiatria pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e Associação Médica Brasileira (AMB). Mestre em Saúde Coletiva pela Unesp (Faculdade de Medicina de Botucatu).

Referências:

-Dejours, C. A Loucura do Trabalho. São Paulo: Cortez Oboré, 1992.

-Moreno-Jiménez, B. Olvido y recupericion de los factores psicosociales em la salud laboral. Editorial dos Archivos de Prevencion de Riesgos Laborales, v.3, p. 3-4, 2000.

-Golembiewski, R. T. Next stage of burnout researh and applications. Psychol. Rep., v.84, p.443-446, 1999.

-Murofuse, N. T.; Abranhes, S. S.; Napoleão, A.A. Reflexões sobre estresse e burnout e a relação com a enfermagem. Rev. Latino- Am. Enfermagem, v.13, p.225-261, 2005.

-Glina, D. M. R.; Rocha, L.E. Saúde Mental no Trabalho: da teoria à prática. São Paulo: Roca, 2010.

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