Pandemia e reações de ansiedade: não consigo parar de pensar no pior!

Umas das queixas que tenho ouvido com muita frequência em meus atendimentos como psicóloga nesses tempos de Covid-19 é: eu não consigo parar de pensar no pior e não consigo deixar de me sentir tenso e aflito! Provavelmente você, assim como eu, se identificou com essa dificuldade, mesmo que em menor frequência ou intensidade. Considerando essa característica tão presente em nossa condição humana, esse texto tem o objetivo de trazer algumas contribuições da psicologia para a compreensão e manejo desse desafio em tempos de pandemia.

Vamos refletir sobre este ponto com a ajuda de um caso hipotético, a história de Lígia, que tem 35 anos. Ela está trabalhando em casa em esquema de isolamento social enquanto seus pais idosos estão em outra cidade. Desde o início da pandemia, ela luta com a seguinte cadeia de pensamentos que, segundo seus relatos, são intrusivos e persistentes: “Meus pais poderão ser infectados pela Covid-19 e serem internados, não vou conseguir visita-los, eles poderão morrer e não conseguirei me despedir deles. Não vou sobreviver a essa dor”. Lígia relata esses sofrimentos na terapia e analisa: “eu sei que não posso resolver essas preocupações agora, mas não consigo tirar esse sofrimento de dentro de mim”.

Primeiramente, é importante destacarmos que as reações de Lígia são totalmente compreensíveis nesse cenário. Quando vivemos um contexto imprevisível e que sinaliza a possibilidade de experiências futuras dolorosas, nossas respostas de ansiedade podem ficar mais intensas.

Essas reações possuem um aspecto adaptativo importante. Quando Lígia entra em contato com os riscos reais do contágio dos seus pais, ela pode ficar mais atenta ao que está ao seu alcance para ajuda-los, por exemplo, a manutenção do isolamento físico em relação a eles e o contato afetivo por meio de chamadas de vídeo. Mas, como lidar com os riscos que ela não pode evitar? E com os pensamentos sobre esses riscos?

Lígia pode ter um olhar mais curioso em relação às suas reações de ansiedade ao invés de evitá-las, buscando se familiarizar com seu corpo e com suas emoções. Lembra da cadeia de pensamentos relatada por ela? O primeiro elo dessa cadeia era: “meus pais poderão ser infectados pelo Covid”. Ao se permitir observar esse pensamento e as emoções que os acompanham, Lígia poderá constatar que está com medo, notar que seu corpo está tenso e que usualmente se engaja em muitos raciocínios na expectativa de não vivenciar a percepção da própria impotência. Aceitar nossa condição humana de não poder evitar algumas dores pode ser um caminho para nos pouparmos de tentativas infrutíferas e exaustivas de controle do futuro.

Temos o costume de sofrer pelo o quê é importante para nós. Essa angústia de Lígia pode ser um sinal da importância que atribui ao vínculo com seus pais, algo que pretende priorizar em sua vida. De maneira poética, a pesquisadora e escritora Brené Brown resume essa discussão:

“Parece que todos nós, de alguma forma, anestesiamos nossos sentimentos. Podemos até não fazê-lo de maneira compulsiva e crônica, mas isso não significa que não entorpecemos nossa sensação de vulnerabilidade. E essa atitude é particularmente debilitante porque não apenas amortece a dor de nossas dificuldades, mas também embota nossas experiências de amor, alegria, aceitação, criatividade e empatia. Entorpeça a escuridão e você terá entorpecido a luz”. (Brown, 2016, p.103).

Convido você, então, a olhar para suas dores e sua sensação de vulnerabilidade nesse período de pandemia com uma lente de maior curiosidade e autocuidado. Esse mundo interno, em alguns momentos, é bastante intenso e amedrontador. Mas ele é nosso, tomemos posse dele para promovermos uma vida com maior significado! Olhar para nossos limites com maior gentileza pode ser um passo bastante produtivo.

Sobre a autora:

alessandra-salina-2

Dra. Alessandra Salina Brandão

Alessandra Salina Brandão – Psicóloga clínica, especialista em terapia comportamental e cognitiva pela USP-SP e doutora em psicologia pela USP-Ribeirão Preto. Gosta de descomplicar a psicologia e busca, por meio de seus textos, contribuir para que um número maior de pessoas tenha acesso ao conhecimento científico dessa área.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *