Cuidando da conexão humana nos períodos difíceis: a importância da empatia

Estamos vivendo um período muito delicado e complexo por conta da pandemia da COVID-19. A conexão com esse momento nos traz preocupações com nossos desafios pessoais e com a dor do outro. Pode ser o sofrimento de alguém que não conhecemos diretamente como, os médicos, enfermeiros e profissionais da linha de frente de áreas mais vulneráveis, ou a dor de quem está sob o mesmo teto que nós. Neste cenário, muitas vezes nos perguntamos como agir e como demonstrar compreensão, afeto e envolvimento.

Quando temos o objetivo de demonstrar esse comprometimento real com o outro, estamos falando, dentre outras habilidades, de EMPATIA. Os autores Arn Ivey, Paul Pederson e Mary Ivey conceituam empatia como a habilidade de perceber a situação do ponto de vista do outro, vendo, ouvindo e sentindo o mundo singular de outra pessoa.

Aplicando essa definição ao nosso contexto de pandemia, podemos considerar que o comportamento de seguir as orientações das autoridades de saúde referente ao isolamento social e medidas de higiene pessoal envolve empatia. Eu posso não estar inserido no grupo de maior risco de ter complicações causadas pelo vírus, mas posso me colocar no lugar dos mais vulneráveis e me comprometer com essa questão coletiva. Neste comportamento, observamos o exercício da empatia (colocar-se no lugar do outro) e compaixão (agir em função dessa percepção).

A empatia torna-se importante também no manejo de nossos vínculos mais próximos, por exemplo, com os familiares que estão vivendo o isolamento conosco. Nesse momento, é comum ouvirmos relatos de dificuldades de conexão entre pais e filhos e entre os companheiros:

“Meu filho adolescente está muito chateado porque sua vida social tinha começado a se agitar e, agora, ele está privado de todas essas vivências. O que eu posso fazer?”

“Meu marido está muito triste porque está com medo de perder o emprego e eu não sei o que dizer”.

“Sinto minha esposa muito distante de mim porque está constantemente preocupada com seus pais idosos”.

O exercício da empatia pode contribuir para o manejo dessas situações. Theresa Wiseman identifica quatro atributos da empatia:

1- ser capaz de ver o mundo como os outros o veem;

2 – não emitir juízos de valor;

3 – compreender os sentimentos dos outros;

4 – comunicar essa compreensão.

Vamos exemplificar uma fala empática em relação à situação hipotética de interação entre a mãe e seu filho adolescente:

“Filho, se eu estivesse no seu lugar, também ficaria aborrecida e frustrada por precisar interromper a vida social da forma como era justo agora que estava tão legal. Está nítido que está difícil para você abrir mão dessas vivências, se quiser falar sobre isso, estou aqui”.

Empatia: importância da validação

Certamente, a empatia é uma habilidade complexa que está na base de conexões afetivas e de intimidade. Um conceito importante e útil para a aprendizagem da expressão e comunicação da empatia consiste na validação.

Marsha M. Linehan, a precursora da perspectiva comportamental dialética, explica que validar é comunicar explicitamente que a forma como alguém se comporta, sente e pensa é coerente, relevante, compreensível, justificável e em algum nível, faz sentido ou funciona. Importante destacar que validar, portanto, não é concordar, aprovar, elogiar, ter piedade ou ser passivo em relação ao que o outro faz ou fala.

Comunicar validação a partir da empatia, ou seja, da conexão com a perspectiva do outro, é especialmente útil para reconhecer a importância de um problema, a dificuldade de uma tarefa, a dor emocional, os objetivos ou mesmo as sensações e sentimentos difíceis da experiência de uma pessoa.

Ao expressar a empatia, apontando a validade da experiência do outro, alcançamos alguns efeitos muito desejáveis nas relações interpessoais, como por exemplo, promovendo a aceitação e maior tolerância a sentimentos difíceis, que serve como abertura para o surgimento de emoções mais adaptativas para a situação problemática. Contribui, ainda, para o autoconhecimento, proporciona um modelo de como a pessoa pode validar a si mesma no futuro, promove conexão e melhora os vínculos afetivos. Sentir-se compreendido e ouvir claramente do outro o quanto nossa experiência, seja qual for, é válida em várias de suas dimensões, pode inclusive abrir o caminho para mudanças difíceis ou enfrentamentos mais complexos.

É importante reconhecer que as pessoas vão apresentar variações na forma, ritmo e efetividade do desenvolvimento da empatia em suas vidas, dependendo da própria história de vida e de como a empatia se fez mais ou menos presente nas relações interpessoais. Conforme dito anteriormente, o contexto atual de pandemia nos convida a identificar e aprimorar nossas habilidades empáticas.

Então, como expressar a empatia e validar a experiência de outra pessoa? Como ajustar a linguagem para proporcionar o efeito de compreensão e conexão sem julgamento? Apresentamos algumas reflexões e sugestões:

– Adotar uma perspectiva de igualdade com o outro, ou seja, reconhecer que acima de tudo há outro ser humano apresentando sua vulnerabilidade e sua complexidade.

– Escutar atentamente, observar, estar presente e disponível. Ouvir a outra pessoa com abertura e curiosidade, mostrar interesse por compreender a perspectiva do outro, suspendendo a atenção momentaneamente das próprias ideias e sentimentos sobre a situação. Imaginar-se, por alguns instantes, vivendo a vida do outro e adotar essa perspectiva para compreender a situação e experiência relatada.

– Perceber a própria tendência de avaliar, julgar e qualificar aquilo que se ouve e intencionalmente colocar a atenção no exercício de acolher, se conectar e sentir junto com o outro aquilo que há para ser experimentado em cada situação, tal como ela se apresenta (ao invés de insistir na versão de como gostaríamos que fosse).

– Comunicar que os sentimentos, pensamentos e ações da pessoa são coerentes e justificáveis em alguma medida com a sua história de vida, características pessoais ou do momento presente vivido.

Esperamos que esses conteúdos possam ajudar a quem está buscando formas de expressar empatia em suas interações sociais. Como mencionamos inicialmente, todas as pessoas que estão verdadeiramente conectadas a esse momento de pandemia estão vivenciando alguma experiência de preocupação ou sofrimento. Que possamos reconhecer, validar e acolher a dor um dos outros. Essa atitude promove conexão, um ingrediente essencial para relações saudáveis.

Sobre as autoras:

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Dra. Alessandra Salina Brandão

Alessandra Salina Brandão – Psicóloga clínica, especialista em terapia comportamental e cognitiva pela USP-SP e doutora em psicologia pela USP-Ribeirão Preto. Gosta de descomplicar a psicologia e busca, por meio de seus textos, contribuir para que um número maior de pessoas tenha acesso ao conhecimento científico dessa área.

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Ma. Natália Pinheiro Orti

Natália Pinheiro Orti – Psicóloga pela UNESP/Bauru, cursou aprimoramento em Psicologia do Esporte pelo Núcleo Paradigma/São Paulo e é Mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem (UNESP Bauru).

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