Ansiedade: o principal oponente a ser batido no mundo dos esportistas de alto rendimento

Veja por que a ansiedade excessiva ou “nervosismo” atrapalha tanto o desempenho de atletas em competições

A ansiedade é um sentimento provocado por situações consideradas adversas, como eventos que sinalizam perigo, dano, prejuízo ou risco para a pessoa. A capacidade de prever esses eventos aversivos nos deixa vulneráveis ao sentimento de ansiedade, que surge naturalmente da antecipação dos riscos e problemas negativos que podem ocorrer em uma determinada situação.

No esporte, é muito comum que os atletas de alto nível se veem em situações agudas de ansiedade motivada pelo enfrentamento de situações adversas durante um jogo ou pela expectativa do sucesso ou fracasso na competição. “Antecipar situações é antes de tudo uma capacidade adaptativa do organismo, ou seja, de grande importância para o desenvolvimento humano. Mas, é fundamental que o atleta saiba lidar com a ansiedade decorrente dessa antecipação de eventos adversos, pois a ansiedade em nível excessivo é incompatível com o desempenho máximo que os atletas querem e precisam apresentar em situações competitivas”, explica a psicóloga Natália Pinheiro Orti, aprimorada em psicologia do esporte do Instituto de Análise do Comportamento de Bauru (IACB).

A psicóloga explica que a antecipação dos possíveis problemas que podem acontecer é importante na preparação de um esportista. “Podemos e devemos fazer isso de modo realista, proporcional e de acordo com o contexto, transformando preocupações em desafios realistas que podem ser enfrentados, evitando desse modo a geração de ansiedade exagerada e excessiva, pois nessas situações o atleta pode se sentir paralisado, impulsivo ou pode perder o timing das jogadas e movimentos”, analisa.

Atualmente, Natália acompanha um grupo de mesatenistas que treinam físico, técnico e tático em Bauru na Associação Nova Era de Tênis de Mesa. Deste grupo, dois atletas competiram no último Parapan-Americano de Toronto, no Canadá – Cátia Oliveira, cadeirante da categoria S2 e que foi campeã no torneio, carimbando a sua passagem para os Jogos Paralímpicos Rio 2016 e o mesatenista Cláudio Massad, pertencente à categoria S10 e vice-campeão Parapan-Americano em Toronto. Além desses resultados individuais, ambos foram campeões em suas categorias nas disputas por equipes.

Com Cátia, a psicóloga trabalhou os objetivos de médio e curto prazo articulados com a principal meta da atleta, que era os jogos Parapan. “Estabelecemos metas diárias, semanais e mensais de treinamento psicológico coerentes com os objetivos de médio e longo prazo. Também a orientei com técnicas de auto-observação e registro de aspectos do desempenho em situações de treinamento, para aumentar a qualidade dos treinamentos do ponto de vista psicológico, o que favorece, dentre outros aspectos, a capacidade de gerenciar a ansiedade em situações competitivas para um nível que favoreça a tomada de decisões e capacidade de concentração em situações decisivas e de tensão”, detalha Orti.

Com Massad, além desses objetivos, Natália também manejou técnicas chamadas de “ensaio mental” para que, durante os treinos, o mesatenista visualizasse situações reais de competição e pudesse praticar o gerenciamento da ansiedade competitiva diariamente. “Com esta e outras técnicas, aumentamos a capacidade de concentração, manejo da ansiedade, capacidade de agir com precisão, velocidade, tomada de decisão rápida à partir da antecipação do comportamento adversário e aplicação de uma maior versatilidade de jogadas” relata a psicóloga.

Aspectos do desempenho que sofrem interferência negativa da ansiedade

Natália Orti elenca alguns das consequências da ansiedade no esporte para os atletas:

1 – Evoluímos de tal maneira que a exposição a ameaças causa mudanças fisiológicas dentro de nós, para que o corpo se prepare fisicamente para lidar com as ameaças, fugindo ou lutando. Essas mudanças fisiológicas podem ser incompatíveis com vários desempenhos esportivos, na medida em que interferem na concentração e capacidade de tomar decisões de acordo com contexto. Nessas condições, um atleta ansioso terá menor probabilidade de perceber sinais do ambiente externo e interno que são importantes para o seu desempenho.

2 – O corpo consome energia ao processar as mudanças fisiológicas decorrentes da ansiedade. Em experiências de ansiedade excessiva, o consumo aumentado de energia durante a atividade pode acarretar diversos problemas em esportes que envolvem resistência ou movimentos rápidos, o que prejudica a realização do desempenho.

3 – O aumento da adrenalina causada pela ansiedade aumenta a probabilidade do atleta se precipitar durante uma rotina técnica que domina bem, o que faz com que perca seu ritmo.

4 – A ansiedade acrescenta estímulos ao ambiente competitivo que não estavam presentes no ambiente de treinamento, o que atrapalha que o atleta generalize o desempenho máximo alcançado em treinos para as competições.

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