A crise que não escolhemos

Há pouco, estávamos fazendo o balanço do ano de 2019, pensando nas possíveis mudanças de projetos, desejos e desafios para 2020. Não sei você leitor(a), mas em nenhum contexto eu poderia imaginar que enfrentaríamos em nossa história uma pandemia.

Parece óbvio que ninguém conta com um cenário calamitoso quando planeja os próximos passos, afinal, não conseguiríamos viver de maneira saudável se esse estado alarmante, que ameaça a vida das pessoas, fosse constante. Mas, muitas vezes o óbvio precisa ser dito e compartilhado: o vírus está aí para além de nossas escolhas pessoais, é um contexto global e coletivo, que impacta em cada vida individualmente.

Assim, apesar de ninguém ter escolhido, todos e todas vivem as consequências dessa crise mundial, causada pelo coronavírus. Uma delas é a medida de isolamento como forma mais eficaz de prevenção à contaminação da população.

Considerando a desigualdade social que marca nosso país, não pretendo dar conta nesse texto de discutir todos os desdobramentos negativos dessa pandemia, mesmo porque o isolamento nem sempre se faz possível nos diferentes lares das famílias brasileiras.

Os danos econômicos, sociais e psicológicos são imensuráveis, mas sabemos que diante de contextos adversos é possível pensar na variabilidade do comportamento humano e por isso acreditamos em saídas possíveis.

A primeira delas é indicada por todas as autoridades de saúde, com orientação básica de higiene para toda a população, como lavar as mãos com água e sabão e fazer uso de álcool em gel.

A segunda saída, para aqueles (as) que estão em casa, trabalhando ou não de maneira remota, é o estabelecimento de uma rotina possível. Veja bem, possível. Ignorar que o contexto não é mais o mesmo e tentar fazer tudo da mesma maneira que antes, pode gerar muitas frustrações. Os horários estão diferentes, as crianças estão em casa, a quantidade de informação só aumenta, às vezes a casa ou o apartamento são pequenos e não permitem a concentração necessária para o trabalho, o comércio está fechado, enfim, precisamos abrir novas possibilidades.

Caso seja viável manter algumas atividades que faziam parte da rotina anterior, mesmo com adaptações, muito bem! Por exemplo, os adultos manterem práticas relacionadas ao trabalho, às vezes alterando o formato da tarefa. Antes as reuniões eram presenciais, os indicadores de produtividade outros, mas se distanciar totalmente é bem-vindo apenas no período de férias. Assim como as tarefas escolares, manter rotina de estudo vai facilitar a retomada da escola depois.

A terceira possibilidade é o começo de novos hábitos ou a retomada daqueles que estavam perdidos. Em geral, gostamos daquilo que sabemos fazer e contextos adversos pode ser uma oportunidade de aprender. Algumas indicações são filmes/séries, leituras, dedicação às tarefas domésticas e práticas de autocuidado, como psicoterapia, alimentação saudável e exercícios físicos possíveis de serem praticados em casa. Para as crianças e adolescentes vale o mesmo, é importante que elas entendam que é um contexto de adaptação, portanto exige mudanças e dedicação para o novo.

Esses exemplos podem não servir para você ou sua família, o importante é tentar hábitos que façam sentido e sejam prazerosos. Aqui sugiro a leitura do texto “A Felicidade é inútil”, do jornalista Clóvis de Barros Filho, com prefácio da Monja Coen, no qual o autor discorre sobre a impossibilidade de qualificarmos ou quantificarmos a felicidade, nos mostrando que não é possível acessá-la através de fórmulas ou receitas, talvez a felicidade nem exista da maneira como é divulgada nos dias de hoje.

O momento que vivemos é de insegurança e naturalmente vai produzir sentimentos negativos, como tristeza e ansiedade, podemos identificá-los como parte do contexto, portanto parte de nós.

A fragilidade é bem-vinda. Aceitarmos nossos limites e podermos contar com o acolhimento de pessoas ao redor é essencial para que possamos encontrar saídas possíveis e cuidar da saúde mental individual e coletiva.

Sobre a autora:

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Sarah Faria Abrão Teixeira

Psicóloga pela UNESP/Bauru. Com especialização em Terapia Comportamental pelo Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR- Campinas). É atualmente psicóloga clínica no atendimento de crianças e adultos e Conselheira XVI Plenário do Conselho Regional de Psicologia de SP.

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